No fundo da xícara, sempre fica rastro traiçoeiro, onde se empossa o futuro duma formiga afogada. Trinta e três: a idade de Cristo. Retorno de Saturno tardio. A hora do chá terminou. Avistei, ao longe, o menino da parte um — ele conversa comigo. Explico que todos já foram embora. Os de perto não são mais os mesmos. Quero dizer: claro que são, mas diferentes.

Lembra da pequena menina encaracolada, que comia acerolas até se entupir? Agora trabalha numa dessas grandes corporações.
E aquele outro — o primo mais velho, que te defendeu no jogo de futebol dos meninos homofóbicos? Já tem dois filhos e mora em Londres. 

Quer saber da mãe? Continua igual. Fique tranquilo. Mesma ternura e preocupação. Às vezes, preocupação maior; às vezes, ternura. Algumas rugas a mais, mas passou a se cuidar.

Não percebeu que todos já estão na parte dois da história? Você também caminhou para esse capítulo — só não se deu conta.

Escorregou igual coelho de colete correndo — atrasado sem motivo, sem hora, sem mesa. Infância talvez nem tenha ido. Ficou embaixo da mesa. Embaixo da língua. Ficou escondida no açucareiro, mascada. Você, menino um, ainda tropeça nas festas que nunca apareceu ninguém. Depois tosse, depois dorme, depois some.

Aqui, na parte dois, nada do que foi vivido na primeira parte se altera. Só se lembra.
Você, o menino da parte um, continuará eternamente a fazer teatros no fundo do quintal para as tias.

Desse outro lado, algumas tias já se foram — também a cachorra, que decidiu pular mais alto e, dessa vez, não voltou.
Sim, na parte dois haverá mais despedidas.

Aquilo que enxergam sobre você também mudou. E aquilo que você próprio vê sobre si.
Esses dizeres são prova disso.

Percebeu pouco tarde, eu sei. Mas isso não se transforma. O nado é lento. Peixe com ascendente em Áries. A água apaga o fogo, ou ela própria borbulha. Aqui também é igual, não se assuste.

O misticismo nunca foi o seu forte. A narrativa, sim.
Gosta dos signos, mas pouco entende do movimento dos astros, quadraturas, cosmogonias.

As linhas da mão ainda apontam para o sul — fique tranquilo. As formigas também. A pintura da cura para um desajustado foi para a Bienal. 

Na fronteira entre você, menino um, e eu, o menino dois, ficaram alguns rascunhos.
Aqueles em que os pés não são acabados, e ninguém aparece para terminá-los.

Queria escrever: Já praticamos o voo livre.
Mas ainda desenho aquele pássaro que empalhou antes da pandemia.

Não gosto da palavra trauma, foneticamente feia, carreguei isso até aqui.
Não se pode ter trauma se não se gosta da palavra.
O resíduo evapora.

O que quero com isso é deixar que nada ultrapasse a folha seguinte sem a minha permissão. Não misture seus olhos mais novos, menino um, no meu corpo mais velho. Cristo também demorou algum tempo, antes de ressuscitar aos trinta e três.


Victor Grizzo

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.

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